Financeiro

Recebi uma citação do banco. O que fazer nos primeiros 15 dias

Quando o banco executa, não precisa provar que você deve: parte direto para a penhora. Mas o prazo de defesa é curto, e existe um direito de parcelamento que pouca gente usa.

Publicado em 3 de outubro de 2026 · atualizado em 3 de outubro de 2026

Chega um oficial de justiça, ou uma carta do fórum. O documento fala em execução, cita um valor e dá três dias para pagar. A reação natural é o susto; a reação útil é olhar o calendário.

O que é uma execução

Contratos bancários como a cédula de crédito bancário são títulos executivos. Isso significa que o banco não precisa primeiro provar que você deve: ele já parte direto para os atos de cobrança, pedindo a penhora de bens e valores.

Por isso o processo começa diferente de uma ação comum. Você é citado para pagar em 3 dias — e, se pagar nesse prazo, os honorários do advogado do banco são reduzidos pela metade.

O prazo que realmente importa: 15 dias

A defesa na execução se chama embargos à execução, e o prazo é de 15 dias, contados em regra da juntada do comprovante de citação aos autos.

É nos embargos que se discute:

  • juros acima da média de mercado divulgada pelo Banco Central para aquela modalidade e época;
  • capitalização não pactuada e encargos cumulados — comissão de permanência com juros de mora, multa e correção;
  • tarifas indevidas e seguro embutido sem possibilidade de recusa;
  • erro de cálculo e valores cobrados em duplicidade;
  • excesso de execução, quando o valor exigido é maior que o devido.

Não é raro que o valor cobrado diminua de forma relevante depois dessa análise.

O direito de parcelar que quase ninguém usa

A lei processual permite ao executado reconhecer a dívida e parcelá-la: depositados 30% do valor — incluindo custas e honorários —, o restante pode ser pago em até 6 parcelas mensais, com correção e juros de 1% ao mês.

É um direito, não uma proposta sujeita à aceitação do banco. O pedido precisa ser feito no mesmo prazo dos embargos, e implica reconhecer o débito — por isso a escolha entre embargar e parcelar deve ser feita com a conta na mão.

O que o banco não pode penhorar

ProtegidoObservação
Salário, aposentadoria e pensãoImpenhoráveis, com exceções restritas, como dívida de pensão alimentícia
PoupançaAté 40 salários mínimos
Imóvel de moradia da famíliaBem de família, salvo se dado em garantia da própria dívida
Móveis e utensílios da casaOs que guarnecem a residência, exceto os de elevado valor
Instrumentos de trabalhoOs necessários ao exercício da profissão

Bloqueios feitos sobre valores protegidos podem ser desfeitos no próprio processo, com pedido de liberação urgente. Para isso é preciso demonstrar a origem do dinheiro — o extrato que mostra o crédito do salário, por exemplo.

Se o carro foi apreendido

No financiamento com alienação fiduciária, o banco pode pedir busca e apreensão. Depois de cumprida a liminar, há 5 dias para pagar a integralidade da dívida — não apenas as parcelas atrasadas — e reaver o veículo.

Mesmo passado esse prazo, a venda do bem pelo banco precisa observar critérios, e o saldo deve ser prestado em contas. Cobrança de saldo remanescente após venda muito abaixo do valor de mercado pode ser contestada.

O que fazer, na ordem

  1. Anote a data em que recebeu a citação e guarde o documento.
  2. Não assine confissão de dívida nem acordo antes de conferir o cálculo.
  3. Localize o contrato que deu origem à cobrança.
  4. Reúna comprovantes de todos os pagamentos feitos.
  5. Verifique a origem de qualquer valor bloqueado, para pedir a liberação.
  6. Decida entre embargar e parcelar com base na conta, não no susto.

Quando as dívidas são muitas e o orçamento não fecha, pode ser caso de superendividamento, que reúne todos os credores num único procedimento.

Perguntas frequentes

Ignorar a citação resolve?

Não. A execução segue sem a sua participação, com bloqueios e penhoras sendo determinados. A ausência de defesa só facilita o trabalho do credor.

Posso ser preso por não pagar o banco?

Não. No Brasil, a única prisão civil por dívida é a do devedor de pensão alimentícia.

Entrar com embargos suspende a cobrança?

Não automaticamente. A suspensão depende de decisão do juiz e, em regra, de garantia do juízo. Por isso os embargos costumam vir acompanhados de pedidos específicos, como a liberação de valores impenhoráveis.

A dívida prescreve?

A pretensão de cobrar a maior parte das dívidas bancárias documentadas em contrato prescreve em cinco anos. Se a execução foi proposta depois disso, a prescrição pode ser alegada.

Negociar diretamente com o banco é melhor?

Pode ser, desde que você saiba quanto realmente deve. Negociar sem conferir os encargos costuma significar aceitar o valor cheio. A análise do contrato é o que dá margem à negociação.