Conta de luz muito alta ou cobrança por "irregularidade no medidor"
A concessionária encontra uma "irregularidade", calcula meses de consumo retroativo e ameaça cortar. Esse procedimento tem regras rígidas — e a mais importante delas limita o corte aos últimos 90 dias.
Publicado em 3 de outubro de 2026 · atualizado em 3 de outubro de 2026
A sequência costuma ser a mesma. Um técnico aparece, inspeciona o medidor, leva o equipamento. Semanas depois chega uma cobrança de milhares de reais, referente a meses ou anos de "consumo não faturado", com aviso de corte se não houver pagamento ou parcelamento.
Essa cobrança tem nome — recuperação de consumo — e um procedimento regulado que precisa ser cumprido à risca. Quando não é, ela pode ser anulada.
O TOI e o que ele precisa conter
Tudo começa com o Termo de Ocorrência e Inspeção. O consumidor tem direito a:
- receber cópia do TOI;
- acompanhar a inspeção ou ser avisado dela;
- ser informado do direito de pedir perícia técnica no medidor, realizada por órgão metrológico oficial, com possibilidade de acompanhamento;
- apresentar defesa antes de qualquer cobrança.
Falhas aqui — TOI entregue sem explicação, medidor retirado sem a presença do consumidor, ausência de oportunidade de perícia — comprometem toda a cobrança que vem depois.
O cálculo também precisa seguir os critérios da regulamentação, e não uma estimativa arbitrária. Cobranças que simplesmente multiplicam uma média alta por vários meses costumam ser contestáveis.
O corte: a regra que mais se descumpre
Esse é o ponto em que o consumidor tem mais força, e quase nunca sabe.
O Superior Tribunal de Justiça definiu, em julgamento repetitivo, que a suspensão do fornecimento por débito de recuperação de consumo só é possível quando:
- a irregularidade foi apurada com contraditório e ampla defesa;
- há aviso prévio ao consumidor;
- o débito se refere ao consumo recuperado dos 90 dias anteriores à constatação da fraude;
- o corte é executado em até 90 dias após o vencimento desse débito.
Ou seja: dívida antiga não autoriza corte. Ela pode ser cobrada pelos meios comuns — ação de cobrança —, mas não pela suspensão de um serviço essencial.
Corte feito fora dessas condições é irregular, permite o religamento por decisão judicial urgente e costuma gerar indenização por dano moral.
Conta alta sem acusação de fraude
Outro cenário é a fatura que dispara sem explicação, sem mudança de hábitos. Nesse caso:
- Peça a revisão de faturamento à concessionária, com protocolo.
- Solicite a aferição do medidor — você tem direito a essa verificação.
- Compare com o histórico dos últimos doze meses, que vem impresso na própria conta.
- Verifique vazamentos, no caso da água: muitas contas altas vêm de vazamento interno, e algumas companhias preveem abatimento nessas situações.
Enquanto a revisão corre, convém pagar a média histórica, para não se colocar em mora enquanto discute a diferença.
Antes de assinar o parcelamento
O parcelamento oferecido pela concessionária costuma vir com uma confissão de dívida. Assiná-lo pode ser interpretado como reconhecimento do débito e dificultar a discussão posterior.
Se a pressão for o corte, o caminho mais seguro é buscar a suspensão da cobrança e a proibição do corte por decisão judicial, em vez de assinar para "resolver".
O que guardar
- Cópia do TOI, com a descrição da irregularidade apontada.
- Carta de cobrança, com o cálculo e o período considerado.
- Contas dos últimos 12 meses, para comparar o histórico de consumo.
- Fotos do medidor e do local, antes e depois da inspeção.
- Nomes e protocolos de todo contato com a concessionária.
- Testemunhas presentes na inspeção.
As demais situações envolvendo concessionárias — equipamentos queimados, interrupções longas — estão em danos elétricos e energia.
Perguntas frequentes
Comprei o imóvel recentemente e a irregularidade é antiga. Posso ser cobrado?
A responsabilidade precisa ser demonstrada. Débitos de consumo têm natureza pessoal, ligados a quem efetivamente consumiu, e a cobrança contra quem chegou depois costuma ser afastada quando se comprova a data de entrada no imóvel.
A concessionária pode negativar meu nome por esse débito?
A negativação de débito ainda em discussão, apurado sem procedimento regular, pode ser considerada indevida, e é possível pedir a suspensão do registro enquanto a cobrança é contestada.
Cortaram minha energia. Quanto tempo leva para religar?
Pedidos de religamento urgente costumam ser decididos em pouco tempo, muitas vezes no mesmo dia ou no dia seguinte, quando a documentação demonstra que o corte foi irregular.
Posso pedir indenização pelo corte indevido?
Pode. O corte irregular de serviço essencial é uma das situações em que os tribunais costumam reconhecer dano moral, especialmente quando há idosos, crianças, pessoas doentes ou prejuízo a atividade econômica.
